MITO 1 - CRIANÇAS QUE
NÃO COMPARTILHA BRINQUEDOS NÃO ESTÁ ADAPTADA.
"Você tem de
dividir o brinquedo com seu amiguinho." "Isso não é seu, empreste
para ele." Frases como essas são comuns em uma sala de Educação Infantil.
Para a criança, muitas vezes, elas podem soar como uma ordem, uma obrigação,
causando choro e recusa. "Aos olhos dos adultos, a negação da criança em
dividir é vista como egoísmo", esclarece Débora Rana. Criar uma situação
ameaçadora, aumentando o tom de voz ou sugerindo uma punição caso a criança não
divida ou colabore com um colega, não é o caminho.
O QUE ACONTECE
Os primeiros anos de
vida, a criança encontra-se num momento autocentrado do seu desenvolvimento e
desconhece as regras de convivência social. A compreensão do sentido e do prazer
de compartilhar virá posteriormente, depois de um processo mais amplo de
reconhecimento do outro.
COMO ORIENTAR OS PROFESSORES
Nas reuniões de
formação, leve referências teóricas sobre as fases de desenvolvimento das
crianças e seus comportamentos, como os estudos do educador francês Jean Piaget
(1896-1980). O trabalho com estratégias de partilha e colaboração pode ser
facilitado se o professor for orientado a montar em sala grupos menores, com
duas ou três crianças, e a promover combinados - como o de que a criança pode
ficar com um brinquedo por certo tempo, mas que depois deve cedê-lo ao colega.
Agir de maneira firme e ao mesmo tempo acolhedora, a fim de mediar os conflitos
e não negá-los ou resolvê-los de forma impositiva, é outra dica. Na hora do impasse,
o ideal é expor o conflito e descrever para a criança as consequências de
querer o objeto só para ela. Além disso, incentivar que elas verbalizem o que
estão sentindo e encontrem soluções em conjunto ajuda no processo de mudança de
atitude.
MITO 2 - CRIANÇA
ADAPTADA É EXTROVERTIDA E PARTICIPATIVA
Durante uma
brincadeira de roda, a turma está toda junta, cantando. Apenas uma criança olha
para o teto, cantarola baixinho alguns versos e não interage com as outras. A
professora chama a atenção: "Cante mais alto! Você está triste? Por que
nunca participa?" Certamente, quem age assim pensa que está incentivando a
interação. Contudo, pode ocorrer o efeito contrário. "O mais adequado é se
perguntar qual estratégia seria melhor para que a criança responda às atividades",
diz Ana Paula Yasbek, coordenadora pedagógica do Espaço da Vila, em São Paulo.
Elogiar apenas os alunos mais participativos aprofunda o sentimento de
não-pertencimento.
O QUE ACONTECE
Existem as crianças
extrovertidas, como também as tímidas. O respeito à personalidade de cada uma é
essencial para o processo de adaptação e o direito à timidez precisa ser
assegurado.
COMO ORIENTAR OS
PROFESSORES
As estratégias para
integrar as crianças devem ser procuradas pelo conjunto de educadores - e, certamente,
com a ajuda dos pais. Para tanto, uma entrevista do coordenador pedagógico com
os familiares sobre as preferências dos filhos é fundamental. Esse material
será cruzado, durante a formação, com os registros de classe, relatórios de
adaptação e portfólios. O que está sendo proposto atende às necessidades da
criança? É possível também fazer visitas à sala ou gravar vídeos para perceber
as práticas que funcionam melhor para cada criança e para o grupo.
MITO 3 - NA EDUCAÇÃO
INFANTIL, TODOS PRECISAM SER AMIGOS
"Que coisa feia!
Dá a mão para o seu colega." Fazer com que as crianças se tornem amigas
não é tarefa da escola, mas ensinar a conviver é um conteúdo imprescindível na
Educação Infantil. Nem crianças nem adultos são amigos de todas as pessoas que
conhecem e não por isso a convivência pessoal ou profissional é inviável. O
papel do professor é incentivar e valorizar o que as crianças têm em comum. A
escolha sobre com quem elas desejam ter uma relação mais próxima é
absolutamente dela.
O QUE ACONTECE
No período de
adaptação, primeiro há a criação do vínculo para que o trabalho escolar
aconteça. Ele deve estar baseado no respeito entre as crianças e entre elas e
os professores. Aos poucos - e naturalmente -, a afetividade vai sendo
construída baseada nas afinidades dentro do grupo.
COMO ORIENTAR OS
PROFESSORES
Os educadores devem
intervir apenas quando a amizade prejudica a participação nas atividades (por
exemplo, quando uma criança só quer ficar com alguns colegas e se isola do
coletivo). A professora precisa ser orientada a desenvolver um olhar atento
sobre as situações ideais para explorar os gostos comuns em favor da
aprendizagem. Nos encontros de formação, invista na criação de oportunidades
para que os pequenos se apresentem e falem dos seus objetos preferidos e
discuta as situações reais que acontecem em sala.
MITO 4 - QUANDO ESTÃO
INTEGRADOS AO GRUPO, OS PEQUENOS NÃO CHORAM MAIS
Basta chegar à escola
que as lágrimas aparecem. Se a mãe vai embora, elas aumentam. Na hora de
brincar, de comer, de ler, choro. Muitos professores ficam desesperados e
tentam distrair a criança mostrando imagens ou arrastando-a para um canto com
brinquedos. Um engano, pois essa atitude pode atingir o objetivo imediato - que
é acabar com o choro -, mas não resolve o problema.
O QUE ACONTECE
"Essa
manifestação é apenas um sintoma do desconforto da criança", afirma Débora
Rana. Interpretar esse e outros sinais - como inapetência e doenças constantes
- é fundamental durante a adaptação. O que eles significam? Por outro lado, a
ausência do choro não quer dizer que a criança está necessariamente se sentindo
bem: o silêncio absoluto pode ser um indicador de sofrimento.
COMO ORIENTAR OS
PROFESSORES
Uma criança que passa
longos períodos chorando necessita de acompanhamento mais próximo. Na falta de
auxiliares, ele pode ser feito pelo próprio coordenador até a criança se sentir
mais segura. Ajuda também ter um plano para receber bem as crianças na primeira
semana de aula. O uso de tintas, água e brincadeiras coletivas variadas é um
exemplo de práticas atraentes que ajudam os pequenos a se interessar pelo novo
espaço. Fazer com os professores uma orientação programada para que as crianças
tragam objetos de casa - como fraldas, panos e brinquedos, que vão sendo
retirados paulatinamente - auxilia a reduzir a insegurança.
MITO 5 - A PRESENÇA
DOS PAIS NOS PRIMEIROS DIAS SÓ ATRAPALHA A ADAPTAÇÃO
Na porta da sala, uma
dezena de pais se acotovela querendo ver os filhos em atividade. A cena,
pesadelo para muitos professores de Educação Infantil, que não sabem se dão
atenção às crianças ou aos adultos, é representativa de um elemento essencial
para que a adaptação aconteça bem: a boa integração entre a família e a escola,
que deve acontecer desde o começo do relacionamento.
O QUE ACONTECE
Nem todo pai ou mãe
conhece as fases de desenvolvimento da criança e as estratégias pedagógicas
usadas durante a adaptação. Eles têm direito de ser informados e essa troca é
fundamental na transição dos pequenos do ambiente doméstico para o escolar. A
ansiedade dos pais vai diminuir à medida que a confiança na escola aumenta - e
isso só acontece quando há informações precisas sobre a trajetória dos
pequenos.
COMO AJUDAR OS
PROFESSORES
É função do
coordenador pedagógico acolher as famílias, fazer entrevistas para conhecer a
rotina da criança e explicar o funcionamento e a proposta pedagógica da escola,
além de estabelecer um combinado sobre a permanência dos pais na unidade
durante a adaptação. Criar juntamente com os professores um guia de orientação
para eles com dicas simples - como conversar com a criança sobre a ida à
escola, a importância de levá-la até a sala e de chegar cedo para evitar
tumulto - pode evitar problemas. Além disso, desenvolver um relatório de
distribuição periódica, com informações sobre os progressos na aprendizagem e
na socialização das crianças ajuda a aplacar a ansiedade dos pais.
Fonte:http://revistaescola.abril.com.br/
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